terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Gueto


Em Varsóvia foram fechados.
Por cá também. Não levantaram um muro à nossa volta, nem andam armados até aos dentes com cães de guarda presos pela trela, nem fazem rondas de carros blindados, nem ainda disparam indiscriminadamente antes de perguntar, mas cercaram-nos, deram-nos um nome e mesmo antes de nos julgar lançaram um veredicto. Somos maus, somos culpados e temos de nos penitenciar e aceitar a nossa sorte e ficarmos quietos no lugar que nos destinaram.
No gueto, em Varsóvia, as pessoas não tinham direitos, nem o direito de serem gente.
Por cá também não.
É certo que temos uma Constituição e habitamos um território que afirmam ser nosso e temos um Parlamento e exército e polícia, também temos uma língua velha de séculos e mar, muito mar e um cemitério com 92090 km2.
Temos Constituição que não se cumpre, que é apenas um papel votado por um parlamento que já não decide. O nosso exército é feito de homens e mulheres e de generais, muitos generais que generalizam sem exercitar, é um exército parado de costas viradas, ofuscado pelo brilho das comendas, pelo chão encerado dos gabinetes.
O território, ahh o território... é feito de cidades viradas ao mar e de deserto, muito deserto com poucas pessoas, errantes, à espera que um dia o nevoeiro chegue e tudo floresça, à espera que tudo volte a ser o que nunca foi.
Também temos líderes, mas são fictícios, como em Varsóvia limitam-se a transmitir as ordens que recebem do lado de fora do gueto, sem se importarem com o nosso destino, porque eles sabem bem que o nosso destino é o fim e querem fugir-lhe, eles e os seus. Querem à custa das nossas vidas, assegurar as suas próprias. Vendem-nos em troco de um lugar à lareira e de uma confortável ração.
Temos polícia é verdade. Mas como em Varsóvia a nossa polícia existe apenas para evitar a revolta, obedece aos obedientes lideres em troco das migalhas que vão apanhando e assim vivem adiando o seu próprio fim.
Em Varsóvia morriam de doença porque não tinham hospitais e os médicos morriam de desespero porque não tinham com que curar.
Cá também.
Em Varsóvia as crianças iam à escola, não para aprenderem a crescer, a tomarem nas mãos o seu próprio destino. Iam à escola para que a submissão lhes fosse instilada, como um veneno.
Por cá também.
Em Varsóvia morria-se aos poucos.
Por cá também.
Em Varsóvia no gueto, as pessoas usavam uma estrela amarela no peito.
Por cá ainda não...

2 comentários:

  1. por cá as pessoas usam estrelas escuras e húmidas nos olhos
    estrelas tristes

    pior do viver com a corda na garganta é ficar no patíbulo à espera que lha ponham

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  2. Certo...mas a luta sendo dura não se pode vergar...quem faz o nosso destino, são os que lutam, mesmo os que perecem...

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